Rubinho Raízes, uma saga de 22 anos para nos contar

Rubinho Raízes, uma saga de 22 anos para nos contar

Tendo iniciado em 1999, como um projeto de música popular, o Instituto de Cidadania Raízes comemorou no mês de maio, 22 anos de atividades, sendo hoje, uma das mais representativas e técnicas organizações sociais, um expoente do chamado Terceiro Setor, tendo passado por seus quadros mais de 400 mil pessoas, entre dirigentes, docentes, apoiadores, funcionários, alunos e beneficiários de seus projetos sociais.

O fundador e mantenedor do Raízes, Rubens de Souza, o popular “Rubinho”, conversou com a reportagem do Jornal Argumento sobre o movimento que iniciou lá atrás e que levou a ser uma referência em gestão e eficiência, com relevantes trabalhos em seu portfólio, tanto na prestação de serviços quanto naquilo que hoje é a sua expertise, a gestão e consultoria de projetos.

 

JA - O projeto Raízes começou, em 1999, como um projeto de música popular e hoje se transformou em uma ONG de primeira linha, comandando um programa da importância do Barueri Esporte Forte. Como chegou a esse crescimento?Rubinho Raízes, uma saga de 22 anos para nos contar

 

Rubinho:  O Barueri Esporte Forte foi um projeto que começou há 28 anos, com o GRB (Grêmio Recreativo Barueri), que foi uma grande referência e impulsionou o esporte na cidade, provavelmente, tem o maior orçamento proporcional do país para o esporte.

Em Barueri, o esporte é levado a sério, porque esporte é saúde. Para cada dólar investido no esporte você economiza três na Saúde. Caiu a ficha para a gente em 2017, quando ganhamos a concorrência para o Raízes assumir a gestão com o nome de “Barueri Esporte Forte”. Nós já tínhamos outras atividades lá, éramos os responsáveis pela gestão escolar da cidade e tocávamos na rede, duas unidades de educação maternal, em período integral.

No início do programa atendíamos 10 mil crianças, havia modalidades para crianças com deficiência, políticas de esportes específicas para mulheres, junto à Secretaria da Mulher e o esporte de alto rendimento com 19 modalidades. A estrutura que nos é dada é fantástica, Barueri tem 12 ginásios poliesportivos. E olhe que o território nem é muito grande, com 300 mil habitantes. Estamos já no 4º ano de execução do programa, com uma avaliação média de 94% de bom e ótimo dados pelos usuários.

 

JA - Ferraz de Vasconcelos é a cidade de origem, tanto do Rubinho quanto  do Raízes. No entanto, o sucesso da ONG sempre foi relativizado na cidade?

 

Rubinho: Eu não concordo... O pessoal vê hoje o Raízes e acha que hoje é uma instituição com sucesso pelos projetos de fora. Já tocamos projetos em Salvador, na Bahia, em Brasília, fomos responsáveis por mais de dois milhões de atendimentos. Em Cuiabá, Mato Grosso, em Bom Jesus dos Perdões, Rio de Janeiro participamos indiretamente.

Executamos o programa Pró-Jovem de Mogi das Cruzes, Guarulhos, Mauá, Cubatão, tocamos projetos em diversas cidades do Estado de São Paulo. Agora, estamos em parceria com o Esporte Clube  Brasil, sob minha gestão em Embu das Artes. Então, fizemos coisas importantes a partir de Ferraz e diversos projetos educacionais na cidade, onde formamos mais de quatro mil alunos.

 

JA - Algumas pessoas, como tem citado, foram importantes para o crescimento do Raízes. Relembre alguns desses principais nomes?

 

Rubinho:  Se eu for falar de nomes, corro o risco de cometer algumas injustiças, esquecer alguns personagens. Mas não posso esquecer a importância de Ricardo Silva, do Padre Ticão e Wilson Tigrão. Esses três não estão mais entre nós e em nome deles quero homenagear todos os que passaram. Tem a Patricia Kay, que também nos deixou, que foi importantíssima para nosso projeto; o professor Geraldo Silva... Já passei de três. Teve tanta gente. No início, procurei pessoas de diversos segmentos, eram músicos, artistas plásticos, street dancers, professores de música, gente que tinha algo a compartilhar. Acho que, neste meio tempo, o ganho principal foi o avanço, o quanto nós evoluímos, aprendemos, porque quem ensina também aprende. Hoje, o que pretendemos buscar é um pouco do retorno às origens, aquela diversidade inicial e retomar a questão do voluntariado.

 

JA - Você fala sempre em “origem”...

 

Rubinho:  A origem é sempre importante em nossas carreiras. Sou ferrazense de nascimento, ou melhor, nasci no hospital Mão Pobre, em Mogi, porque Ferraz não tinha maternidade. Então, fizemos coisas importantes, tem muita coisa boa do Raízes em Ferraz, como a gestão do Bom Prato, nossos núcleos de alfabetização, junto ao “Educar Para Mudar”, a Casa de Cultura Raízes, o time de futebol do Raízes, hoje “Raça Ruim”, a escolinha de  futebol Raízes, que há 25 anos está lá, com o professor Marcelo, o antigo cinema, qualificação profissional. A escola de samba Raízes... Tudo isso, o laboratório foi em Ferraz.

 

JA - Por qual razão o know-how que vocês adquiriram nunca foi aproveitado em sua cidade berço?

 

Rubinho: Dizem que santo de casa não faz milagres. Acho que é porque nós sempre fomos independentes politicamente. Vergávamos, mas não dobrávamos à grupos políticos locais, só querem  parceiros  dispostos a ouvir e obedecer.  Não era o nosso caso, queríamos ter voz e ser protagonistas. Talvez seja por isso.

 

JA - E o programa Bom Prato, por que saíram?

Rubinho: Nossa primeira unidade foi em Carapicuíba, depois Franca e por último Ferraz. Nosso padrão impôs qualidade na confecção dos pratos e no atendimento. Acredito que as entidades que estão lá também buscam essa qualidade. Mas, fazer como nós fazíamos é difícil para qualquer empresa. Muitas vezes, tomávamos prejuízo e tínhamos de comprometer o orçamento do projeto para manter a qualidade. Eu tinha o maior orgulho de levar empresários em almoços de negócios da minha empresa para almoçarem nos  Bom Prato. Chegou o momento que vimos que a conta não batia. Em cinco anos, tivemos inflação acumulada de 40% nos alimentos e tivemos um reajuste de 10% no contrato. Não dava. Ou saíamos ou o orçamento da instituição estaria comprometido, pois teríamos indenizações trabalhistas a pagar. Educação: os programas voltados à educação foram uma marca pelos quais passaram milhares de alunos em todas as localidades onde funcionou um “ braço ” do Raízes.

JA - Por qual razão os projetos educacionais em larga escala não acontecem mais?

 

Rubinho:  Com o tempo, ampliamos os campos de atuação e nos especializamos na gestão de projetos. Em Barueri, por exemplo, éramos os responsáveis pela avaliação de todo o currículo educacional da rede municipal.  Atuamos diretamente em duas unidades de educação infantil e ainda tocamos três unidades do SAICA, que é o serviço de acolhimento de crianças e adolescentes, em Carapicuíba.

 

JA - Hoje, o senhor é um expoente entre os empreendedores sociais, além de um gestor de sucesso no segmento. Em sua visão, o mercado para o terceiro setor está mais curto ou ainda há muito espaço para empreender?

 

Rubinho: No Brasil, sempre há espaço para empreender. A diferença é que nós do Raízes, estamos com o foco na gestão, que é o nosso forte. Fazemos parte, inclusive, de um grupo que fiscaliza a atuação das ONG em todo o País.

 

JA - De maneira geral, como enxerga o desempenho do Terceiro Setor neste período de pandemia de Coronavírus?

 

Rubinho:  Antes de mais nada, no Terceiro Setor estão aquelas pessoas que tem empatia, que estão preocupadas com o bem-estar de outras pessoas, e com o que fazer para ajudar ao próximo. O primeiro setor é o governo, o segundo são as empresas e o terceiro é essa gama de milhares de pessoas que buscam fazer o bem para o próximo, seja de forma associativa, como nas ONG, ou de forma individual.

 

JA - Está havendo intercâmbio de experiência ou cada um está tocando o seu barco?

 

Rubinho: No atual momento, com o foco na Pandemia, as entidades estão muito voltadas à atenção básica das comunidades. Sempre há uma troca ou outra de informações, mas o momento exige cuidado e controle com as contas, inclusive.

 

JA - O terceiro setor não está imune à crise que atingiu o País. Em sua experiência, que dicas e/ou conselhos daria para quem está iniciando ou pretende iniciar no Terceiro Setor?

 

Rubinho: O conselho que dou é simples, comece: é fazendo que a gente vai aprendendo e melhorando, crescendo. Se eu fosse esperar para ter alguma experiência antes, talvez o Raízes nem tivesse o alcance que tem hoje. Então, o negócio é ir fazendo.

 

Rubinho nas Redes Sociais: @rubinho4

Entrevista publicado no Impresso, edição 177

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